Medicamento e exercício físico são aliados na perda de peso e qualidade de vida
O Mounjaro, como ficou conhecido o medicamento da tirzepatida, ou popular “caneta emagrecedora”, ganhou grande repercussão na mídia e entre as pessoas que buscam neste método uma forma de perda de peso. Associado a aplicação, está a orientação dos profissionais da saúde para a mudança nos hábitos de vida que isso deve gerar na rotina do paciente. Entre estes, está a adoção de uma alimentação saudável e a prática de exercícios físicos, para, além de manter o peso, fortalecer o corpo e a saúde. Para aprofundar esse tema, falando principalmente sobre o uso do medicamento associado a prática esportiva, conversamos com a educadora física, e proprietária da Academia da Adri, Adriane Lorenzato, que esclarece dúvidas e repassa orientações sobre o assunto.
Noticiário Regional – Qual é a orientação principal para a pessoa que faz a aplicação do Mounjaro, com relação ao exercício físico, o treino pode começar logo após o uso?
Adriane Lorenzato – Eu diria que não existe uma regra geral de que a pessoa precise ficar sem fazer exercício físico simplesmente porque aplicou o medicamento. O Mounjaro (tirzepatida) é administrado uma vez por semana, e a possibilidade de treinar deve ser avaliada principalmente de acordo como a pessoa está se sentindo naquele momento.
O que precisamos ter é bom senso e individualização. Algumas pessoas podem apresentar náusea, vômito, diarreia, desconforto abdominal, redução importante do apetite ou sensação de fraqueza, principalmente durante o início do tratamento ou quando há aumento da dose. Nesses casos, não é indicado “forçar” o treino. É preciso respeitar os sinais do organismo e do corpo, se os sintomas forem importantes ou persistentes, deve-se procurar o médico que acompanha o tratamento.
Outro ponto que considero importante é a hidratação. Náuseas, vômitos e diarreia podem levar a desidratação, e isso merece atenção especial quando a pessoa também está realizando exercício físico.
Portanto, mais importante do que pensar “posso treinar logo depois da aplicação?” é perguntar: como estou me sentindo, estou bem hidratado, estou conseguindo me alimentar adequadamente e estou em condições de realizar o exercício com segurança? Se sim, não vejo motivos para não treinar.
Noticiário Regional – Por que é orientado associar o uso do medicamento com o exercício físico?
Adriane Lorenzato – Porque o objetivo de um tratamento para emagrecimento não deveria ser simplesmente perder peso na balança. Precisamos pensar em qualidade do peso perdido e, principalmente, na saúde da pessoa.
Os medicamentos podem ser uma ferramenta importante no tratamento da obesidade, mas não substituem os hábitos de vida. O exercício físico contribui para melhorar a força, capacidade funcional, condicionamento cardiorrespiratório, saúde metabólica e qualidade de vida.
Além disso, durante um processo de perda de peso existe a preocupação com a redução de massa magra (músculos). Por isso, principalmente a musculação tem um papel muito importante: ele oferece um estímulo para que o organismo preserve melhor a musculatura e mantenha ou desenvolva força e funcionalidade.
É por isso que, na minha visão como profissional de Educação Física, medicamento e exercício não devem ser vistos como concorrentes. São ferramentas diferentes que podem fazer parte de um tratamento integrado, cada uma dentro da sua função.
Noticiário Regional – Quais os benefícios que o treino gera para quem faz a aplicação?
Adriane Lorenzato – São muitos. O exercício físico ajuda a preservar e desenvolver massa muscular, aumentar a força, melhorar o condicionamento cardiovascular, a mobilidade, o equilíbrio e a capacidade de realizar as atividades do cotidiano. E existe algo que considero fundamental: a pessoa pode até perder peso com o medicamento, mas queremos que ela também ganhe saúde, força e autonomia.
Para uma pessoa que está emagrecendo, conseguir levantar da cadeira com facilidade, subir escadas, carregar compras, brincar com os filhos ou netos, caminhar sem cansar e ter mais disposição são resultados tão importantes quanto o número que aparece na balança.
O treinamento de força é muito importante durante a perda de peso, não queremos simplesmente reduzir o peso corporal, queremos favorecer uma melhor composição corporal e preservar a função muscular.
E eu vejo que a maioria dos médicos e profissionais que indicam a medicação costumam orientar e reforçar a importância do exercício físico durante o tratamento. O problema é que, algumas vezes, o paciente acaba enxergando apenas o resultado da balança e pensa: “Estou emagrecendo, então está tudo certo.” E deixa de lado justamente uma parte fundamental do tratamento que foi recomendada pela equipe que o acompanha. O exercício físico.
Noticiário Regional – Caso a pessoa não associe o exercício físico com o uso do Mounjaro, o resultado pode não ser o esperado?
Adriane Lorenzato – Não significa que a pessoa necessariamente não irá emagrecer sem fazer exercício físico. O medicamento pode produzir perda de peso mesmo sem treinamento. Porém, o resultado do tratamento não deveria ser avaliado apenas pela perda de peso.
Quando associamos o tratamento medicamentoso a alimentação adequada e exercício físico estruturado, conseguimos trabalhar também aspectos que o medicamento sozinho não oferece, como força muscular, capacidade funcional, condicionamento físico e manutenção de massa magra.
Por isso, eu gosto de dizer que emagrecer é diferente de ficar saudável. A balança pode mostrar um número menor, mas nosso objetivo deve ser que essa pessoa esteja mais forte, mais ativa, com melhor composição corporal e com mais qualidade de vida.
Noticiário Regional – Com relação ao tipo de exercício (cárdio, musculação, funcional…) é recomendado algum específico para o paciente, e que tenha resultado melhor?
Adriane Lorenzato – Não existe uma única modalidade que sirva para todas as pessoas. O exercício precisa ser individualizado de acordo com idade, condição física, histórico de saúde, limitações, objetivos e experiência daquela pessoa.
Mas, para quem está passando por um processo de emagrecimento, considero a musculação fundamental. Ela ajuda a desenvolver força, preservar a musculatura e melhorar a funcionalidade.
Isso não significa que o exercício aeróbico não seja importante. Pelo contrário: caminhada, corrida, bicicleta e outras formas de exercício cardiorrespiratório são excelentes para condicionamento cardiovascular e saúde metabólica.
O ideal não é escolher entre musculação ou cárdio como se um anulasse o outro. É construir uma estratégia que combine diferentes estímulos, de acordo com a necessidade e individualidade de cada um.
E existe algo que considero essencial: individualização. Uma pessoa que está usando Mounjaro e apresenta náuseas, baixa ingestão alimentar ou fraqueza, por exemplo, pode precisar de uma adaptação temporária do volume e da intensidade do treinamento. O exercício precisa acompanhar a condição daquele indivíduo naquele momento.
Outro ponto muito importante é que a pessoa informe ao profissional de Educação Física que está fazendo uso do medicamento. Isso permite que o treino seja melhor individualizado. Durante o processo de emagrecimento, especialmente quando há redução importante da ingestão alimentar ou perda de peso mais rápida, precisamos acompanhar como essa pessoa está respondendo aos exercícios e ajustar volume, intensidade, cargas, intervalos e progressão de acordo com sua condição. O objetivo é proporcionar um estímulo adequado para preservar e desenvolver a massa muscular, melhorar a força e evitar que o processo de emagrecimento resulte também em perda excessiva de capacidade física.
Noticiário Regional – Como profissional, o que você orienta a pessoa que faz ou pensa em fazer a aplicação do medicamento, com relação aos cuidados com sua saúde?
Adriane Lorenzato – Como profissional de Educação Física, eu não vejo esses medicamentos como vilões. Existem pessoas que realmente precisam desse tipo de tratamento e, em determinados casos, o exercício físico e a mudança de hábitos, sozinhos, podem não ser suficientes para que a pessoa consiga atingir uma perda de peso adequada. Nesses casos, o medicamento pode ser uma ferramenta importante dentro de um tratamento médico.
O que eu gostaria de enfatizar é que não devemos esperar chegar à obesidade ou a um quadro mais grave para começar a cuidar da saúde. Precisamos começar antes: cuidar da alimentação, praticar exercício físico regularmente, desenvolver força muscular, manter um peso saudável e construir bons hábitos ao longo da vida. Isso é prevenção.
Muitas vezes, as pessoas só procuram ajuda quando o problema já está instalado, quando o excesso de peso já trouxe alterações metabólicas, dores, limitações físicas ou outras complicações. E tratar uma doença instalada geralmente exige muito mais tempo, dedicação e investimento do que trabalhar na prevenção.
“Prevenir é sempre melhor do que remediar”. Por isso, a minha orientação é: não espere a balança chegar a um número que assuste para começar a cuidar de você. Não espere o médico dizer que você está com obesidade, diabetes, hipertensão ou outra complicação relacionada ao excesso de peso para começar a se movimentar.
Comece antes. E, se mesmo fazendo exercício físico, cuidando da alimentação e mudando os hábitos, a pessoa chegar a um ponto em que precisa de tratamento medicamentoso, não deve enxergar isso como um fracasso. O medicamento pode ser uma ferramenta importante dentro do tratamento, mas não deve ser visto como substituto dos hábitos saudáveis.
O que precisamos combater é a ideia de que uma caneta vai resolver tudo. Ela pode ajudar no processo, mas o corpo continua precisando de músculo, força, movimento, alimentação adequada, sono e acompanhamento profissional.
Na Academia da Adri, nós acreditamos justamente nisso: não trabalhamos apenas para emagrecer pessoas. Trabalhamos para cuidar da saúde antes que ela seja perdida. Porque o melhor momento para começar a cuidar da saúde não é quando aparece uma doença. É antes dela aparecer.

