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    As mudanças e os novos desafios do professor em sala de aula

    Joana Reichert
    Para Erenisi Vogt, o ensino tradicional e as tecnologias podem ser um equilíbrio nessa nova forma de ensinar e repassar os conteúdos

    Na visão de quem acompanha de perto a educação

    A educação, no que se refere a forma de educar e aprender, vem se transformando muito ao longo dos anos, e grande parte disso se deve pela introdução das tecnologias e ferramentas de inteligência artificial. Neste mês, em que comemoramos o Dia do Professor, conversamos com a professora Erenisi Vogt, com 25 anos de trabalho na área, e que tem acompanhado de perto essa revolução dentro e fora da sala de aula. Uma mudança que trás novos desafios, tanto para professores como para alunos, e que conforme define Erenisi, faz o papel dos educadores ser fundamental. Pois é o profissional, com suas habilidades e conhecimentos, que vai auxiliar os estudantes a diferenciar o que é verdadeiro, pensar criticamente e a transformar informação em conhecimento.

    Noticiário Regional – Qual é sua trajetória profissional: onde se formou, em quais áreas, principais locais de trabalho e há quantos anos é professora/profissional da educação.

    Erenisi Vogt – Me formei em Letras Língua e Literatura Inglesa pela Universidade de Palmas – Paraná no ano de 1999 e na sequência fiz uma especialização na mesma área. Inicialmente atuei nas escolas municipais CIEF, CIER, em paralelo São Lourenço, Cristo Rei e a Vendelino Seidel.  Me efetivei em 1999 na EEB Madre Benvenuta de São João do Oeste e no ano seguinte fiz a permuta para EEB Padre Vendelino Seidel, escola onde atuo até a presente data. Porém, em abril 2020, recebi convite do então diretor Pedro Valdir Gauer para ser assessora de direção e posteriormente o mesmo convite pelo atual diretor Valtuir Dal Bosco. Estou há mais de 25 anos no magistério, com a pretensão de permanecer até final desse ano, e então usufruir de licenças que tenho conquistado e, na sequência, encerrar o ciclo profissional com a possibilidade de ressignificar o tempo, redescobrir caminhos e continuar construindo sentidos para a vida.

    NR – Em todos estes anos na sala de aula, o que você percebe que mudou na forma de ensinar e aprender?

    Erenisi Vogt – Posso afirmar que muita coisa mudou nessa caminhada. Quando ingressei no magistério, o ensino era muito mais tradicional. O professor explicava, o aluno ouvia, copiava, fazia as atividades e depois era avaliado. O professor era, de certa forma, o centro da sala de aula. Com o passar dos anos, fomos percebendo que ensinar não é somente transmitir conhecimentos através de conteúdo. O aluno precisa participar, questionar, experimentar, relacionar aquilo que está aprendendo com a sua realidade. Da mesma forma mudou a maneira como os alunos aprendem. Antes, quando se tratava de um assunto a investigar, pesquisar, muitas vezes precisávamos ir até a biblioteca, procurar em livros, enciclopédias. Hoje, em poucos segundos, o estudante tem acesso a uma quantidade enorme de informações. Sendo assim, surgiu outro desafio: ensiná-lo a buscar o conhecimento válido e saber o que fazer com tanta informação. Precisamos ajudá-lo a diferenciar aquilo que é verdadeiro daquilo que não é, a pensar criticamente e a transformar informação em conhecimento. E acredito que hoje, esse é um dos nossos maiores desafios.

    NR – Qual foi a maior mudança à qual você, como professora, precisou se adaptar?

    Erenisi Vogt – Acredito que uma das maiores mudanças é entender que nós também precisamos mudar. Durante muito tempo, nós aprendemos uma determinada maneira de ensinar e, naturalmente, tendemos a repetir aquilo que conhecemos. Só que os alunos mudaram, a sociedade mudou, a tecnologia mudou e a escola, as universidades também precisaram e ainda precisam mudar, ter esse novo olhar. Precisamos aprender novas metodologias, conhecer novas ferramentas, utilizar recursos tecnológicos e, principalmente, entender que nem sempre aquilo que funcionou muito bem com uma geração, vai funcionar com a geração atual. Tivemos que sair da zona de conforto. Isso não significa que tudo o que fazíamos estava errado. Muito pelo contrário, tenho certeza de que existem práticas tradicionais que continuam sendo extremamente importantes. Porém, o que muda é a necessidade de combinar diferentes estratégias. E essa demanda vem reforçar que precisamos estar em constante estudo, aprendizagem. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da nossa profissão: aprendemos todos os dias.

    NR – Com a tecnologia, a internet e os celulares, qual é hoje o maior desafio para manter a atenção dos alunos?

    Erenisi Vogt – Esse com certeza, é um grande desafio. O celular, a internet e as redes sociais trouxeram inúmeras possibilidades, mas também criaram uma realidade em que o estudante está permanentemente exposto a notificações, vídeos curtos, jogos, mensagens e conteúdos que competem diretamente pela sua atenção. E nós professores, precisamos concorrer com essa realidade extremamente dinâmica. Enquanto uma explicação em sala exige concentração, escuta e tempo para construir um raciocínio, o ambiente digital oferece respostas imediatas e estímulos rápidos. Mas acredito que o problema não esteja simplesmente na tecnologia ou no celular. O grande desafio está em ensinar o estudante a utilizar esses recursos com consciência e propósito.Precisamos ajudá-los a compreender que nem tudo o que chama a atenção é necessariamente importante e que aprender exige também concentração, paciência, esforço e capacidade de permanecer diante de um desafio. A escola tem um papel fundamental nesse processo. Não podemos simplesmente ignorar o mundo digital em que nossos estudantes vivem. Precisamos educá-los para utilizá-lo de maneira responsável, crítica e produtiva.

    NR – Você acredita que a tecnologia e o ensino tradicional podem caminhar juntos?

    Erenisi Vogt – Com certeza. Eu não vejo a necessidade de escolher entre um ou outro. Acredito muito no equilíbrio. Existem coisas que aprendemos de maneira tradicional e que continuam sendo fundamentais: ler, escrever, interpretar, fazer cálculos, resolver problemas, estudar, ouvir uma explicação, conversar com o professor, discutir uma ideia. Mas hoje temos recursos que podem complementar tudo isso. Podemos utilizar vídeos, imagens, jogos, pesquisas, plataformas digitais, simuladores e inteligência artificial. Podemos tornar uma aula mais dinâmica e oferecer diferentes maneiras para o aluno compreender determinado conteúdo. O que precisamos ter é clareza de que a tecnologia é um meio, não o objetivo da aprendizagem. E isso precisa se fazer compreender nessa geração.  Não adianta usar uma ferramenta moderna simplesmente porque ela é moderna. O importante é saber: “O que isso vai acrescentar à aprendizagem do meu aluno?” E acredito também, que aí entra um papel importante nosso, bem como das famílias, que ele, o estudante, precisa aprender a utilizar esses recursos com responsabilidade e propósito.

    NR – E como o professor pode se beneficiar da tecnologia e da inteligência artificial?

    Erenisi Vogt – Acredito que, tanto a tecnologia como a inteligência artificial devem ser usadas como nossas aliadas. Pois, nos ajudam a preparar atividades, criar questões, pensar em diferentes maneiras de explicar um conteúdo, elaborar projetos e até adaptar atividades para estudantes que apresentam diferentes necessidades e ritmos de aprendizagem. Tudo isso facilita e muito, o nosso trabalho. Porém, existe uma coisa que considero fundamental: a inteligência artificial pode nos ajudar, mas ela não conhece o aluno como nós o conhecemos. Somos nós que percebemos aquele aluno que está quieto demais, que percebe quando o estudante ou alguma coisa não está bem. É o professor que sabe que determinada turma precisa de uma abordagem diferente, que conhece a história, as dificuldades e as potencialidades dos seus estudantes. Por isso, eu não vejo a inteligência artificial como uma substituta do professor. Mas, como uma ferramenta que pode nos ajudar a fazer melhor aquilo que já fazemos. E esse é um desafio que temos diante de nós: aprender a utilizar a tecnologia sem perder aquilo que existe de mais importante na educação, que é a relação humana.

    Nessa caminhada, presenciei muitas mudanças, evoluções na área tecnológica e também nas gerações. E com certeza, teremos muitas transformações e numa velocidade ainda maior. Mas, apesar de todas essas mudanças, uma coisa continua igual: o estudante sempre precisa de alguém que acredite nele, que o incentive, que o ajude quando ele tem dificuldade e que mostre que ele é capaz de aprender. E eu acredito que o professor do futuro não será aquele que sabe tudo sobre tecnologia. Será aquele que souber usar a tecnologia sem deixar de olhar para o aluno como um ser em construção.

    Depois de 25 anos, essa é uma das maiores certezas que levo comigo: podemos mudar a maneira de ensinar, mas nunca podemos perder a sensibilidade de educar pessoas. Afinal, nenhuma transformação na educação faz sentido se não tiver a humanização como princípio.

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