Riqueza – No próximo dia 18 de maio, a comunidade de Riqueza celebra um marco raro e profundamente emocionante: os 100 anos de vida de dona Olanda de Moura, uma mulher cuja trajetória se confunde com a própria história da colonização, do desenvolvimento e da formação das comunidades do Extremo Oeste catarinense.
Ao longo de um século, dona Olanda viu o mundo mudar diante dos olhos. Viu a mata fechada dar lugar às estradas, às casas, às escolas e às comunidades. Viveu o tempo em que não havia médico, energia elétrica, escolas estruturadas ou recursos básicos. Criou filhos, netos, bisnetos e já acompanha a chegada de tataranetos. Sua história é, acima de tudo, um retrato de resistência, trabalho e amor à família.
Natural do Rio Grande do Sul, dona Olanda nasceu na região de Casca, então vinculada ao município de Passo Fundo, nas proximidades de Marau. Ainda menina, com cerca de 11 anos, deixou a terra natal junto dos pais e irmãos para buscar uma nova vida no Oeste. A viagem foi até a comunidade de Vorá, em Descanso. Naquele tempo, não havia município, não havia infraestrutura, e o destino era praticamente só mata. A viagem, feita de carroça, durou quatro dias. Da quinta-feira até o domingo pela manhã, a família enfrentou barro, estradas precárias e paradas forçadas no caminho. “Era só mato. Tinha que andar com facão junto”, recorda.
Enquanto a família vinha de carroça, os animais, vacas e cavalos, foram conduzidos por outros familiares em uma jornada que levou oito dias. Quando chegaram, encontraram uma realidade dura: mata fechada, poucos moradores e quase nenhum recurso. A infância de dona Olanda foi marcada pelo trabalho no campo e por muitas dificuldades, pois aos 13 anos, perdeu seu pai, e assim, sua mãe foi todo o alicerce da família. Sem recursos, a família precisou seguir em frente sustentada pelo trabalho dos irmãos mais velhos e pela força da mãe.

Filha de uma família numerosa, cresceu entre irmãos, ajudando nas tarefas da lavoura e da casa. A agricultura era o sustento de todos. Plantava-se de tudo: milho, feijão, hortaliças e alimentos para o consumo da família. “Comida quase não se comprava, porque tinha de tudo em casa”, relembra.
Mesmo em meio às dificuldades, ela teve acesso à escola, algo raro para a época, mas todo o tempo que permaneceu na escola não ultrapassou seis meses. Para estudar, caminhava cinco quilômetros a pé todos os dias, enfrentando frio intenso, barro e temporais. As aulas aconteciam em uma pequena escolinha, e o professor era pago pelos próprios pais dos alunos. Naquele tempo, não havia cadernos como hoje. A escrita era feita com pena e tinta, em tábuas improvisadas. O frio era tão intenso que, muitas vezes, as mãos ficavam rígidas. Sempre ao chegar, no inverno o professor tinha uma chapa de tijolos aquecida com fogo, para que os alunos pudessem esquentar os pés, já que grande parte ainda vinha descalço. A vida no campo exigia maturidade precoce. Pela manhã, a escola. No restante do dia, a roça. Era enxada na mão, cultivo da terra e ajuda constante à família.

Foi na juventude, em meio aos tradicionais bailes realizados nos porões e casas de madeira da comunidade, que dona Olanda conheceu o grande amor de sua vida, que viria a se tornar seu marido, Pedro de Moura. Naquele tempo, os bailes eram simples, mas cheios de encanto. Os móveis eram afastados, alguém puxava a gaita, outro tocava violão ou gaita de boca, e a festa estava feita. Pedro vinha de cavalo ou de canoa, atravessando o rio para participar dos encontros. O namoro começou quando dona Olanda tinha 16 anos. O casamento veio aos 20 anos, enquanto ele tinha cerca de 28.
Foi uma união sólida, construída no respeito, no trabalho e no companheirismo.
Juntos, permaneceram casados por 60 anos. Depois do casamento, dona Olanda fixou-se na região da Cambucica, em Riqueza, onde ajudou a cuidar da sogra e construiu a vida ao lado do marido, detalhou sobre o amor sempre foi o principal pilar do casal, e que não se recorda de alguma vez, os dois se retrucarem.
O casal viveu da agricultura, trabalhando na terra e criando os filhos com os frutos do próprio esforço. Foram sete filhos, nascidos em casa, em tempos em que os partos eram assistidos no próprio lar, sem hospitais ou maternidades. Cada nascimento era um ato de coragem. Cada filho, uma nova esperança. Hoje, a família cresceu de forma impressionante. Dona Olanda é mãe, avó, bisavó e tataravó. São 14 netos, cerca de 32 bisnetos e um tataraneto, um legado humano que atravessa gerações.
Ao longo de 100 anos, dona Olanda testemunhou a transformação completa da região. Ela viu surgir escolas, igrejas, estradas, propriedades rurais estruturadas e o crescimento das comunidades. A região que antes era mata fechada hoje é espaço de progresso. “Agora evoluiu muito. Está muito melhor do que era”, afirma.
Sua trajetória também se entrelaça com a história da própria comunidade, ajudando a formar vínculos, fortalecer famílias e construir a identidade local.

Aos 100 anos, dona Olanda segue lúcida, carismática e com memória admirável. Apesar das limitações naturais da idade, como a fraqueza nas pernas, continua se virando com autonomia nas tarefas do dia a dia. Ainda aprecia um bom chimarrão, símbolo tão presente em sua história gaúcha e catarinense. Cercada pelo carinho dos filhos, netos e demais familiares, dona Olanda é um exemplo vivo de sabedoria. Atualmente, está aos cuidados do filho Luiz Carlos de Moura e da nora, Nadir de Moura.

