Jocelâyne Bauer
Mondaí – No dia 1º de maio, quando o Brasil celebra o Dia do Trabalhador, histórias como a de Irossida Terezinha Ues, a “Terê da Celesc”, ajudam a dar rosto e significado à data. Aos 70 anos, recém-afastada da rotina profissional, ela carrega na memória mais de quatro décadas de dedicação ao serviço público, marcadas por desafios, mudanças tecnológicas e, sobretudo, compromisso com as pessoas.
Natural do Rio Grande do Sul, Terê construiu sua vida no Oeste catarinense. Antes de ingressar na Celesc, trabalhou em um mercado no município de Palmitos, onde deu seus primeiros passos no mundo do trabalho. Foi ali que começou a desenvolver o senso de responsabilidade que, anos depois, seria essencial em sua longa carreira.
Aos 27 anos, veio a oportunidade que mudaria sua trajetória: o ingresso na então cooperativa Erusque, que posteriormente foi incorporada pela Celesc. Com a transição, os funcionários foram automaticamente integrados à nova estrutura, e Terê passou a fazer parte de uma das principais empresas do setor elétrico do estado.
Em Mondaí, onde atuou por 43 anos, tornou-se uma figura conhecida. “Todo mundo me conhece”, diz, com simplicidade. No dia a dia, exercia funções administrativas e de atendimento ao público — uma posição que exigia paciência, organização e, muitas vezes, jogo de cintura.
Sua trajetória também acompanha a evolução tecnológica do trabalho. “Quando eu comecei, era tudo no papel e caneta”, relembra. Depois vieram as máquinas de escrever e, mais tarde, os computadores. “Quando chegou o tal do computador, a gente ficou apavorada”, conta, entre risos. A adaptação não foi fácil, mas, como em tantas outras situações, ela seguiu aprendendo e se reinventando.
Apesar da função administrativa, Terê não ficou restrita ao escritório. Em tempos em que equipes eram reduzidas e os recursos escassos, ela também acompanhava eletricistas em atendimentos no interior. Estradas precárias, falta de comunicação e condições adversas faziam parte da rotina.
Uma dessas experiências ficou marcada para sempre. Durante a ligação de energia para um casal de idosos, em uma propriedade rural, um erro na instalação provocou um curto-circuito. “O eletricista fez sinal para mim, de que podia ligar a chave, e quando eu liguei, deu uma explosão e tudo virou uma fumaça, o casal de idosos, levaram um grande susto. Pensei: ‘meu Deus, quase matei os velhos’”, recorda. A casa não tinha forro, e a fumaça se espalhou rapidamente. Apesar do susto, ninguém se feriu, mas o episódio ilustra os riscos e a responsabilidade dos envolvidos no trabalho.
Ao longo dos anos, Terê acompanhou programas de expansão elétrica que levaram energia a comunidades rurais, contribuindo diretamente para melhorar a qualidade de vida de muitas famílias. “Era tudo muito diferente. Não tinha celular, não tinha mapa. A gente ia se virando como dava”, lembra.
A rotina intensa também exigia sacrifícios pessoais. Com jornada diária das 7h30 às 11h30 e das 13h30 às 17h30, o tempo livre era escasso. “A gente vivia pensando no trabalho. Não desligava nunca”, afirma. Mesmo assim, ela seguiu firme, construindo uma carreira sólida e respeitada.
Agora, após deixar definitivamente a função — embora já estivesse aposentada anteriormente — Terê vive um novo momento. “É um alívio, mas também é estranho”, confessa. Acostumada a uma vida “ligada no 220”, ela ainda se adapta ao ritmo mais tranquilo. “Agora é aproveitar”, resume. A sensação, no entanto, é de dever cumprido. Foram 43 anos dedicados a uma mesma instituição, atravessando mudanças, enfrentando desafios e contribuindo para o desenvolvimento da região.
Neste Dia do Trabalhador, a história de Terê simboliza milhares de brasileiros que, com esforço diário e dedicação silenciosa, ajudam a construir o país. Mais do que números ou tempo de serviço, sua trajetória revela o valor do trabalho feito com responsabilidade, coragem e humanidade.

