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    Relato de família pioneira resgata a histórica chegada dos primeiros desbravadores a Porto Feliz

    O primeiro abrigo de emergência de Porto Feliz, utilizado pela equipe de Jacob Schüler, antes da construção das primeiras edificações, com o cozinheiro Luiz de Almeida ao centro

    Jocelâyne Bauer

    Mondaí – O dia 3 de julho ocupa um lugar especial na história de Mondaí. Mais do que uma data no calendário, representa o momento em que um grupo de homens, movidos pela coragem, pelo espírito desbravador e pela esperança de construir uma nova comunidade, chegou às margens de Porto Feliz, dando início à ocupação organizada da localidade que, décadas mais tarde, se transformaria no município de Mondaí.

    Passados 104 anos desse acontecimento histórico, a memória daqueles primeiros pioneiros permanece viva graças aos relatos preservados por seus descendentes. Entre eles está Inge Gertrud Giehl, neta de Mathilde Grace Fritz Schultheiss, que compartilha uma narrativa repleta de detalhes transmitida por sua avó, considerada a terceira mulher a chegar à nova colonização.

    Mathilde Grace era filha de Johann Adolf Fritz, um dos integrantes da primeira expedição que chegou a Porto Feliz. Carinhosamente chamada de “Omi Grace” pelos familiares, ela registrou suas lembranças e experiências, posteriormente transcritas para o Livro do Centenário de Porto Feliz, permitindo que novas gerações conheçam com riqueza de detalhes os primeiros dias da colonização.

    A história começa em 2 de julho de 1922, quando um grupo formado por 14 trabalhadores, liderados por Jacob Schüler, concluiu uma difícil viagem terrestre até a Foz do Rio da Várzea, em Iraí. Durante dias, os pioneiros enfrentaram estradas tomadas pelo barro, chuvas constantes, obstáculos naturais e enormes dificuldades para transportar alimentos, ferramentas, equipamentos e materiais destinados à construção da futura colônia.

    Na manhã seguinte, em 3 de julho de 1922, teve início um dos capítulos mais importantes da história regional. A embarcação Timbaúva realizou sua viagem inaugural navegando pelas águas do Rio da Várzea e do Rio Uruguai até alcançar Porto Feliz. Entre os tripulantes estava Johann Adolf Fritz, trisavô de Inge Gertrud Giehl. Marinheiro, mestre foguista, agricultor e principal condutor da embarcação, Fritz teve papel decisivo na condução do Timbaúva durante as inúmeras viagens realizadas para transportar pessoas e materiais até a nova colônia.

    Rebocando uma balsa carregada de tábuas e madeira, a embarcação levava os insumos necessários para erguer as três primeiras construções da localidade: a Casa do Imigrante, o Escritório da Companhia Colonizadora e a primeira residência particular, construída com recursos da família Fritz/Schultheiss. Segundo o relato preservado pela família, na primeira travessia seguiram apenas sete homens, parte das bagagens e os materiais considerados indispensáveis para iniciar imediatamente as obras. No dia seguinte, Johann Adolf Fritz e Jacob Schüler retornaram para buscar os demais trabalhadores e o restante da carga, repetindo esse percurso diversas vezes ao longo de aproximadamente seis meses.

    A colonização de Porto Feliz foi idealizada pela Companhia Chapecó Pepery Ltda, sob coordenação do diretor Hermann Faulhaber, que confiou a Jacob Schüler a responsabilidade de reunir e liderar a equipe encarregada de abrir a mata, demarcar estradas e levantar as primeiras edificações. Integravam essa primeira expedição: Jacob Schüler; Johann Adolf Fritz; Karl Albin Bornholdt; Wilhelm Gaertner; Karl Gaertner; Wilhelm Borkhardt; Leopold Brockhardt; Helmut Schmidt; Reinhold Schmidt; Robert Benz; Südmann; Lagasse, primeiro fotógrafo de Porto Feliz; Matzenbacher, mestre encadernador de livros; Luiz de Almeida, conhecido como “Schwartzer Lui”, responsável pela alimentação da equipe.

    Cada um desempenhava uma função essencial. Havia carpinteiros, agricultores, marinheiros, fotógrafos, encadernadores e cozinheiro, todos unidos pelo mesmo objetivo: transformar uma área coberta por mata fechada em uma comunidade organizada. Foi graças ao esforço desse grupo que surgiram as primeiras construções, foram abertas as futuras ruas conhecidas como Porto, Aurora e Engenho, definido o local da futura serraria e iniciada uma pequena lavoura de milho destinada à subsistência dos trabalhadores.

    Mais de um século depois, parte dessa história ainda pode ser encontrada em Mondaí. Segundo Inge Gertrud Giehl, alguns integrantes da equipe pioneira estão sepultados no Cemitério Municipal. Entre eles estão Johann Adolf Fritz e Karl Albin Bornholdt. Também repousou ali Jacob Schüler, que faleceu vítima de tifo, embora seus restos mortais tenham sido posteriormente trasladados para a cidade onde vivia sua família. Wilhelm Gaertner também foi sepultado em Mondaí após falecer anos mais tarde. Sobre os demais dez integrantes da expedição, não há registros conhecidos sobre seus locais de sepultamento.

    A memória da colonização também permanece ligada aos locais onde surgiram as primeiras construções. Conforme o relato familiar, a primeira residência construída em Porto Feliz localizava-se onde atualmente está instalado o Educandário Gessy Speier Averbeck. Já a Casa do Imigrante e o antigo Escritório da Companhia Colonizadora ficavam nas proximidades do atual posto fiscal, na região do Porto.

    Aos fundos o escritório da empresa Colonizadora e em anexo a casa que seria cedida para a família Brüggemann, à frente em destaque o galpão do Imigrante  
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