Jocelâyne Bauer
Mondaí – Todos os dias, por volta das 8h30 da manhã, e às 17h30, da tarde, uma visita especial costuma movimentar a propriedade de Roque Klein, na La. Beira Rio. Sem precisar de convite ou chamado, os jacus chegam silenciosamente, vindos da mata e das áreas de vegetação próximas, já conhecendo o caminho e sabendo que ali encontrarão alimento. O que começou há mais de três décadas como uma simples oferta de milho acabou se transformando em uma curiosa e afetiva relação de convivência.
Roque conta que a história começou há mais de 35 anos, ainda quando morava em outra chácara. Na época, os jacus apareciam para comer o milho que era colocado para as galinhas. Aos poucos, as aves passaram a frequentar o local com cada vez mais naturalidade. Quando Roque e a família se mudaram para a propriedade onde vivem atualmente, os jacus demoraram um período para descobrir o novo endereço. Com o tempo, porém, voltaram a aparecer. A presença dos animais foi se tornando novamente parte da rotina da família.
Hoje, o milho continua sendo um dos principais alimentos oferecidos às aves, mas não é o único. Bananas, mamão e outras frutas também fazem parte do cardápio. Roque explica que, inclusive, deixa alguns mamões amadurecerem e caírem naturalmente dos pés para que os jacus possam se alimentar. A rotina já é tão conhecida pelas aves que elas não demonstram receio em se aproximar dos moradores. Quando Roque se senta em um banco próximo ao local onde costuma colocar a comida, os jacus chegam a poucos metros para comer. Atualmente, cerca de seis aves frequentam a propriedade.
A proximidade entre Roque e os jacus chama a atenção justamente porque não se trata de animais domesticados. Eles continuam vivendo livremente, circulando pela propriedade, pelas áreas de mata e pelas plantações da região. A diferença está na confiança construída ao longo dos anos. Os animais convivem tranquilamente com a presença de pessoas, gatos e cachorros e não costumam fugir quando alguém se aproxima de maneira tranquila. Durante os períodos mais quentes do ano, a presença das aves tende a ser ainda mais frequente. Além da oferta de alimento, a propriedade também oferece água e um ambiente favorável para que elas permaneçam por perto.
Depois de se alimentarem, os jacus seguem para as áreas de vegetação, onde encontram folhas, frutos e insetos. No final do dia, costumam permanecer nas árvores da região. Roque acredita que algumas das aves utilizam laranjeiras como local de descanso, embora nunca tenha acompanhado de perto onde exatamente elas passam a noite.
A convivência diária também permitiu que Roque observasse comportamentos que normalmente passariam despercebidos. Um dos momentos mais curiosos ocorre durante o período de reprodução. Quando as fêmeas estão chocando, elas deixam de aparecer com a mesma frequência. Nessa época, os machos continuam visitando o local para se alimentar e, segundo a observação de Roque, levam parte da comida para as fêmeas. Ele também já presenciou uma cena ainda mais especial. Em janeiro, duas fêmeas apareceram acompanhadas de dois filhotes. Os pequenos ainda eram muito jovens e permaneciam próximos das mães enquanto elas se alimentavam. Roque percebeu que as fêmeas utilizavam uma espécie de bolsa localizada na região do papo para transportar parte do alimento. Depois, ao baixar a cabeça, liberavam o milho para que os filhotes pudessem comer. Os dois filhotes cresceram e, atualmente, já estão adultos, integrando o grupo que continua visitando a propriedade da família.


