Mondaí – O último sábado, 25, foi marcado por emoção, memória e resistência na Linha Catres. O Movimento dos Atingidos por Barragens, MAB, promoveu uma celebração especial pelos 40 anos de uma das maiores mobilizações populares do sul do país, o nascimento de uma resistência que, desde 1985, luta pela preservação das comunidades, das águas e da vida.
O ato ocorreu em frente ao Posto do Nane, local simbólico onde estão fincadas as cruzes que representam a resistência contra a construção da barragem de Itapiranga. Essas cruzes, erguidas há quatro décadas, tornaram-se o marco físico e espiritual de um movimento que continua vivo, defendendo os direitos das famílias ameaçadas por empreendimentos hidrelétricos e pela exploração indevida dos recursos naturais.
A celebração iniciou com a acolhida feita por Pedro Eloir Nelchior, integrante da coordenação do MAB, que destacou a importância de relembrar a história e manter viva a luta que começou ainda nos anos 1980, com a antiga Comissão Regional dos Atingidos por Barragens (CRAB). “Hoje celebramos a primeira cruz colocada aqui na Linha Catres, em 13 de outubro de 1985. Foi o início de uma resistência que impediu o avanço dos estudos do projeto da hidrelétrica da Eletrosul. Com o apoio de Dom José Gomes, das igrejas, sindicatos e da população, o povo se uniu e disse não à destruição das suas terras e das suas comunidades”, recordou Nelchior.

Em seguida, a militante Francine Kuffel, também do MAB, conduziu um momento de mística popular, relembrando os símbolos que representam a essência da luta. Entre os momentos mais marcantes, houve a lembrança do papel do bispo Dom José Gomes, figura central no apoio à mobilização dos atingidos. Nos anos 1980, ele convocou um abaixo-assinado histórico contra os projetos de barragens na Bacia do Rio Uruguai, recolhendo mais de um milhão de assinaturas.
O ex-coordenador da primeira comissão local de atingidos, Guido Kappes, também fez uso da palavra. Após foi realizado um ato de celebração eucarística e em seguida foi realizado o descerramento de uma placa comemorativa, aberta pelo Roquelane Meier, proprietário do Posto do Nane, juntamente com o auxílio das crianças da comunidade. O texto do memorial reafirma o espírito de resistência: “Há 40 anos, em 13 de outubro de 1985, é erguida a cruz como grito de resistência contra a barragem de Itapiranga. São marcas de luta, coragem e esperança por justiça social e ambiental. Quatro décadas depois, permanecem como testemunho que não se cala a voz de um povo.”
O vice-prefeito de Mondaí, Ginther Otto Dreier (foto detalhe), representou o Poder Executivo Municipal e destacou o valor histórico e emocional da resistência. “Se a barragem tivesse sido construída, a comunidade da Linha Catres seria a mais atingida. Não há indenização que pague o valor sentimental e familiar dessas terras. Por isso, vocês são vencedores. A Administração Municipal está ao lado de vocês, e seguimos acreditando que essa barragem não sairá do papel”, declarou.

O militante Roque Theobald lembrou que o MAB nasceu justamente dessa luta na Bacia do Rio Uruguai, expandindo-se nacional e internacionalmente. A deputada estadual Luciane Carminatti, assessores parlamentares e diversas autoridades locais também prestigiaram o ato.
Na sequência, José Luis Mallmann fez a leitura de uma Carta de Apoio ao 4º Encontro Internacional das Comunidades Atingidas por Barragens e à Crise Climática, que será realizado em Belém (PA), durante a COP30. O documento reafirma a resistência das comunidades do Rio Uruguai e defende o uso sustentável da água e da energia.

