Mondaí viveu, neste último final de semana, um daqueles momentos em que o tempo parece dar uma volta completa. Duas amigas que construíram parte da infância e da adolescência às margens do Rio Uruguai, mas que seguiram seus caminhos rumo a Florianópolis há décadas, retornaram à cidade para um reencontro marcado por abraços, lembranças e a redescoberta de um lugar que, mesmo transformado, continua a pulsar afetos.
Marisa Hilbert e Jacema Rodrigues voltaram não apenas para rever amigas e conhecidas, mas para revisitar histórias que ajudaram a moldar quem elas se tornaram. Entre conversas animadas, caminhadas por ruas conhecidas e visitas a pontos que guardam memórias pessoais, as duas reviveram uma Mondaí que permanece viva na lembrança — e que agora se apresenta renovada aos seus olhos.
Marisa Hilbert, natural de Joinville, chegou a Mondaí em 1972, ainda criança, aos 10 anos de idade. Foi ali que construiu suas referências mais marcantes de infância e adolescência. Em julho de 1982, aos 19 anos, deixou a cidade rumo a Florianópolis, transferida pelo então Banco do Estado de Santa Catarina, BESC, onde já trabalhava. A mudança também acompanhou a transferência de seus pais, que haviam seguido antes. Desde então, Marisa retornou uma vez à cidade há mais de 25 anos, para participar de um casamento. Ainda assim, Mondaí nunca deixou de ser “casa” para ela. “Aqui ficou a infância e a adolescência. Não tem como não lembrar dos melhores momentos da nossa vida”, recorda.
Entre as memórias que guarda com carinho estão as idas à chácara de amigos nos fins de semana, as histórias vividas às margens do Rio Uruguai e os laços criados com pessoas que foram marcantes em sua formação. “A dona Erika Hillesheim foi a minha primeira patroa na vida. Aprendi muita coisa com ela e levei isso para a minha vida adulta. Por isso é tão bom voltar”, conta.
Jacema Rodrigues, natural de Pelotas, no Rio Grande do Sul, chegou a Mondaí ainda pequena, pouco antes de completar dois anos de idade, quando seu pai, funcionário do Estado, foi transferido para trabalhar na cidade. Ali viveu 11 anos e construiu o que define como “a melhor infância que alguém poderia ter”.
Em 1977, aos 13 anos, deixou Mondaí. Sua mãe havia se mudado primeiro, e Jacema permaneceu por um período com a avó, até que toda a família partiu. Desde então, voltou apenas uma vez, cerca de um ano depois, para rever amigas e a avó. Agora, décadas mais tarde, o retorno ganhou um significado especial. “Quando você cresce numa cidade pequena, todas as meninas são como se fizessem parte da família. Um dia você precisa rever a tua família. Foi para isso que eu vim”, resume. Embora tenham se conhecido ainda em Mondaí, Marisa e Jacema não tiveram uma convivência tão próxima na época. O reencontro, de fato, começou muito tempo depois, no ambiente virtual.
Jacema relembra que foi no antigo Orkut que começou a procurar antigas colegas, usando nomes completos e pistas do passado para reencontrar pessoas que haviam seguido caminhos diversos. A iniciativa resultou, anos depois, na criação de um grupo de WhatsApp batizado carinhosamente de “Meninas 60+”, que hoje reúne amigas espalhadas por diferentes cidades. Foi por meio desse grupo que surgiu a ideia da viagem. Marisa tinha um compromisso em Chapecó e lançou o convite. Jacema topou o desafio, e as duas seguiram rumo ao reencontro com Mondaí.
Ao caminhar pelas ruas, as duas se surpreenderam com as transformações. “A cidade está bonita, organizada, tudo arrumadinho. E a natureza continua exuberante”, observa Marisa. Para ela, há um valor especial no que chama de “conservadorismo das famílias”, no cuidado com as tradições e no resgate das origens. Jacema também percebeu o desenvolvimento. Locais que antes eram terrenos, casas de madeira ou pavilhões comunitários hoje abrigam centros comerciais e novas construções. Ainda assim, os pontos de referência continuam despertando lembranças. Marisa mostrou onde ficava a antiga casa da família, o pavilhão da igreja vizinha e a garagem improvisada onde o pai estacionava o carro.
Outro destaque foi o movimento no Rio Uruguai. As duas se encantaram com a quantidade de embarcações, atividades náuticas e a presença de pescadores, lanchas e jet skis. “É muito legal ver as pessoas aproveitando essa riqueza que a cidade tem”, comentou Marisa.

Neide Stecker, de Mondaí, amiga em comum, também participou do reencontro e foi uma das responsáveis por ajudar a manter o grupo unido ao longo dos anos, reunindo contatos e incentivando a troca entre as antigas colegas. “A gente cantava juntas quando éramos crianças, vivia sempre junto. Naquela época, todo mundo brincava junto, independentemente da idade”, lembra.
Neide foi quem buscou Marisa e Jacema em Chapecó no domingo, 1º, ambas participaram da Festa em Honra a Nossa Senhora dos Navegantes na segunda-feira, 02, e a despedida foi na quarta-feira, 04, quando as duas retornaram para Florianópolis, mas prometeram manter os laços ainda mais próximos.
Entre risos e lembranças, Marisa cita uma antiga lenda local: quem bebe da água do Rio Uruguai sempre acaba voltando. Para ela e Jacema, o ditado popular ganhou sentido real neste fim de semana. Mais do que uma visita, o retorno a Mondaí foi uma viagem no tempo — uma forma de reafirmar que, apesar das mudanças, algumas conexões permanecem intactas. Entre ruas renovadas, natureza preservada e amizades que resistiram às décadas, as duas amigas deixaram a cidade com a certeza de que Mondaí continua sendo parte fundamental de suas histórias.

